quinta-feira, 13 de setembro de 2012

contar até dez para ir embora

Repousa um corpo do lado do outro. Olhar, dois olhos nos dois do outro. Encosto os lábios para conferir teu corpo e tua verdade. Umas três palavras e pausas para rir. Pausa para respirar no teu pescoço. Te sentir cinco vezes: tatear a pele, ver o olho, respirar o teu cheiro, morder a orelha e beijar teu paladar. Te querer seis vezes. Te beijar sete. E se eu fosse tu eu abusaria de mim. Eu ali, tão cheia de pudor que estava nua. Tão dona de mim que estava tua. E a idiotice orgulhosa seguia separando nós dois.Não, nem era a idiotice orgulhosa, era qualquer outra coisa. Poderia ser repulsa. Se eu respirasse tesão, não oxigênio, eu já teria te mastigado inteiro. Teria te comido sem nenhuma regra de etiqueta, me lambuzando inteira. Não, era uma implicância da mente que me lembrava a idiotice orgulhosa.Se eu fosse eu e não estivesse sendo tu, eu me importaria menos com o que os outros tinham dito ou poderiam dizer.Não, era um amor que ardia sem se ver tão implicante quanto qualquer lembrança das tolices juvenis. Eu me tornei tua súdita. Mentira, só me acostumei com o lugar que já havia tomado há muito tempo. Te odiei.Te fiz rei. Me arrastei, te arranhei, me agarrei nos teus cabelos. Voltamos a tomar nossos respectivos lugares na cama, com os corpos repousados. E nos amamos e retomamos os lugares mais umas oito vezes.
Levantaste para tirar meu cheiro do teu corpo e voltar a dormir tranquilo. Te esperei dormir ao teu lado, na minha posição de súdita. O estado contemplativo desta vez durou menos, uns nove minutos. Te adorei, mas pelo avesso. Tirei teu braços de mim e fui embora. "Só estava te tirando de mim. To indo embora. Beijo. Tchau" Eu vou viver dez, eu viver mil. Eu vou viver sem você.

te (d)escrevo para lembrar de esquecer

Eu tinha que te (d)escrever. Eu tinha que contar tudo para alguém, antes de contar para ti que não queria mais cruzar com os teus olhos.
Eu disse para São Rimbaud das Temporadas Infernais que me escutasse e me enviasse umas preces, ele deu jeito de enviar uma mensagem divina:
"Eu habitava em sua alma como em um palácio que se desocupou para não se ver nele uma pessoa menos nobre que vós: eis tudo. Ai! eu dependia por completo dele. Mas, que queria ele de minha existência opaca e covarde? Não me tornava melhor, se não me fazia morrer! Tristemente despeitada, eu lhe disse algumas vezes: "Compreendo-te". Ele dava de ombros.(...)Ai! dias havia em que os homens afiguravam-se-lhe joguetes de delírios grotescos; punham-se a rir horrivelmente, por muito tempo. - Depois recuperava seus modos de jovem mãe, de irmã mais velha. Se fosse menos selvagem, estaríamos salvos! Mas também sua
doçura é mortal. Estou submetida a ele. - Ah! Estou louca!". "Um dia, talvez, desaparecerá maravilhosamente; mas preciso saber se voará para algum céu, para que eu veja, ainda que por um pouco,
a assunção de meu amiguinho"

E eu repetia mais ou menos isso quando acordava: "Um dia, talvez, desaparecerá, maravilhosamente;(...)" Dos delírios do Rimbaud, ou mais um dos meus incontáveis modos de (d)escrever o que fomos, o que pretendiamos ser; mas o jeito de te encontrar agora era num quase mantra, que te mandava para o Céu. Enquanto eu tirava uma temporada no Inferno. Longe, alucinada e delirante. Queimando na ninhada de labaredas, pronta para te esquecer.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

das mãos epalmadas o espanto e como eu acho estranho tudo isso

É claro que eu achei bizarro não fazer parte da tua despedida. Não fazer parte da tua última aprovação, do teu primeiro emprego. Imagina só que eu não sei nem que é o último cara que você transou! Nem quisemos saber qual era a programação do feriado uma da outra. Por acaso, nos encontramos por aqui e ali, mas não contamos nada mais além do que tinhamos contado ao padeiro: sobre como íam as respectivas mães e se estava "tudo bem". Não não estava tudo bem, Fulaninho estava sem me responder há uma semana e eu queria te contar isso; mas esses "tudo bom, tudo bem"? a gente reconhece de longe a superficialidade. Além disso, eu estaria sendo injusta com o padeiro se detalhasse mais a você que a ele minha vida. Ele tem me dado mais motivos para sorrir que você, o pão, além de mais macio, têm saído na hora certa; e isso não acontecia há muito, desde quando não voltava mais a nossa cidadezinha.
Sempre achei estranho encontrar um cara que eu beijei na balada passada e nem saber como cumprimentá-lo na semana seguinte, mas com as amigas isso é muito mais constrangedor.
Foi estranho encontrar a sua família e lembrar que não era mais a sua mãe, tão mãe quanto a minha. Encontrei uns pertences inúteis e umas coisas que tinha preparado para o último natal. Que coisa estranha esse negócio todo de existir, ir e vir.

Marinheiro

Mais uma vez. O sorriso e o cabelo mais despenteado que o meu. Ou não. Enfim, o quão estávamos escabelados e isso era engraçado e tão, naturalmente, bonito, me deixou ainda mais suave naquilo tudo.
Acho que essa coisa de casa bagunçada e sapato espalhado pela casa sempre me deixou mais "a la vontè", por isso eu logo tirei os sapatos e pedi pra tocar de canal..Ele trocara o canal inúmeras vezes para que achasse o que não-assistiríamos nas próximas horas. E aí trocamos o canal, o olhar, a gargalhada, etc e tal. Misturamos tudo. Inalamos fumaça de cigarro em cima de tudo, molhamos tudo com tequila e enxugamos tudo com um cobertor bem quente.Dois escabelados, dois doidos (que não doíam por nada). Não sei se pelo cobertor ou se pela temperatura que a troca de calor do contato das duas peles atingiu, mas estavamos aconchegantemente felizes. Eu estava. Até tentamos que tudo isso tivesse terminado numa explosão orgasmática, mas já tinha sido intenso o suficiente para acordar de manhã e, depois de cheirar o pescoço dele, sorrir com a alma. Nem prestei atenção se sorri com os dentes, mas eu sorria. E depois de sair para respirar aquela manhã bonita, o meu corpo não andava, balançava. Ele só disse: "Aparece!" E segui balançando e nem olhei para trás. Foi descuido, não antipatia, eu estava ocupada demais sentindo o ar movimentar minhas costelas. Apareço.

Porque diabos dói?

Só sobre essa força das tuas palavras que eu queria entender.Se o Papai Noel me esquecesse eu até entenderia, mas você.Porque você consegue lembrar de me esquecer sempre que você quiser? O problema é essa vulnerabilidade, essa coisa de ser doida de amor pela tua voz. Beija e lembra que é bom. Beija e me sente, de novo. E de novo. E de novo.

Não era sobre o nosso "não ser" que eu penava, era sobre o "não mais". Esse quase nunca que me deixa na tua frente e não é.Me esquece, mas lembra de não lembrar. Me beija, mas lembra de não sentir.
Eu não queria mais te conhecer. Eu queria mesmo o desconhecer, o re-conhecer em ti o que tu não eras. Que bonito eu tinha te pintado. Zeus.Porque doeu mais em mim que em ti? Você é o agente, o catalisador de nós dois. Quem decide o melhor momento, e quem não deixa explodir.


Doeu em mim porque eu te protegi, e não quero que você sinta isso. Nunca.


E, o maior segredo de todos, para mim, é: até que ponto a realidade individual é uma ilusão

né, Pollyana?

O dia branco me fazia doer os olhos, porque aquela quase luz que pendia para escurecer, por ora, me deixava meio tonta. Foi só vir a lua e noutro dia ele estava lá. Ainda bem que veio o Sol, clareou de verdade a luz, nunca escura, d'alma.
Ainda bem que quando eu sentia dores(de parto) amorosas eu podia agarrar as tuas mãos. Ainda bem que existiam as mãos. Ainda bem.

Dia desses a noite caiu e a luz não apareceu, nem lua. Nem nada. Parecia que ia esfriando de uma maneira inversamente proporcional ao meu sono. Insônia e frio. E solidão. Ainda bem que a música tocou.

Se não fosse o teu abraço naquela tarde com o peito inundado de angústia, não sei o que seria. Será que eu resistiria? Ainda bem que existem teus braços. Ainda bem.

viu a fumaça e decidiu que vinha do fogo

Que bom que é. Sempre é bom estar junto. Porque quando não for mais, será distância e só.
E deitar junto e olhar no olho perto e me enxergar no teu olho e te sentir no meu quadril e te sentir respirar na beira da minha nuca e sentir tua mão caminhar no meu corpo e tua mão correr no meu corpo e flutuar por sobre o teu corpo e pesar inteira e mão e boca e e e e e ....Assim, sem vírgula. E com espaços bem pequenos, espaços que quase não percebia. E eu nem pedia significados, mas queria significar. Quem bom se eu te livrasse de tudo que eu sabia que (não)eras. Quem bom explodir um alívio no meu ouvido "ahhhhh..........." . Que bom te ver entregue ao, tão sonífero e puro, oxigênio. Respirar, expirar. Tão leve.
E por querer que significasse eu não deixei transcender. E por querer ser eu não deixei que significasse. 
E por querer transcender eu não fui.E tanto e tanto, e tanto pranto.
E ainda me espanto, mas como acho tudo isso bom!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Não apaga a luz

Os meses gelados do inverno pedem abraços e sorrisos para que esquentemos. Inverno passado foi diferente e eu me sentia quente mesmo sem tê-los[os abraços, ou os sorrisos], alguma coisa aqui e acolá supriam o desejo dos teus braços e teus dentes. O desejo supria o próprio desejo. Mas inverno é sempre inverno e mesmo que tenha gramado com sol, amigos e bergamota ao pé da arvore, vai fazer sofrer na hora de pensar em tomar banho. E é com a bergamota e os cremes de abacate que eu finjo que eu amo o inverno; é quando a gargalhada aquece que eu finjo que amo o inverno.

E do mesmo modo, quando você surgiu eu resolvi fingir, mas o arrepio da pele quando tuas mãos me tocavam não me deixaram mentir.

Traição pura, a do meu sensível. Eu quis fazer jogo duro, esperar um tempo, amadurecer esse pingo de luz que se transformara num globo de espelhos respingando brilho por todo lado; eu quis que fosse diferente só por ser, a bem da verdade, nada me desagradou. Só precisávamos fugir dos olhares e beijos endoidados tão convencionais. Tinha que ser diferente do “boca, nuca, mão e a tua mente não”, porque eu queria a tua mente antes da boca. E talvez as mãos. As mãos na nuca. E aí então, por fim, teus lábios.

E antes que apaguemos as luzes eu quero te respirar inteiro, pesar meu corpo sobre o teu e fazer com que tenhamos que ritmar nossa respiração juntos, porque o meu abdômen expandindo brigaria com o teu. Inspiraremos e expiraremos juntos, até faltar o ar.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pablo Trindade



porque tantas vozes arrepiam mais que uma

veloz, ou voraz

É claro que eu queria te despertar mais que o retorno.
Fosse esse sentimento uma infinita highway, e não a rótula. Porque numa rótula você só contorna uma situação e logo segue em frente.
E esse contorno não dura mais de segundos.
Parece que esses dias foram segundos e meu carro capotou; por ver vc dirigir, tão veloz, o seu.
Farol alto. Não, eram seus olhos.
Quase me cegaram, mas eu tive um momento de lucidez e pude voltar à sanidade mental antes da cegueira. A tão temida cegueira.
Olha que paradoxo, eu fico cega com seus olhos.
Parece que, naturalmente, você sempre tem mais poder que eu.
Os teus olhos cegam, o teu carro corre.

Eu cego e capoto.
Meu carro amassou, mas não sei se era culpa do abismo em que ele capotou ou você mastigou ele por inteiro.

Também não sei se era um carro. Acho que era um coração.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012


Breuer ia partir quando Lou Salomé lhe tomou o braço e pôs-se a andar junto dele. - Doutor Breuer, essa hora foi curta demais. Estou ávida por mais um pouco de seu tempo. Posso caminhar com o senhor de volta ao hotel? O convite impressionou Breuer pela ousadia, masculinidade; entretanto, dos lábios dela, soava como normal, não afetado - a forma natural como as pessoas deveriam conversar e viver. Se uma mulher aprecia a companhia de um homem, por que não lhe dar o braço e pedir para andar com ele? Contudo, que outra mulher usa conhecida palavras? Estava diante de uma espécie diferente. Ela era livre! - Jamais lastimei tanto declinar um convite - disse Breuer.


Este é um trecho do livro que eu to lendo. Estas são as palavras de Irvin Yalom. Esta sou eu traduzida neste trecho!