quinta-feira, 13 de setembro de 2012

te (d)escrevo para lembrar de esquecer

Eu tinha que te (d)escrever. Eu tinha que contar tudo para alguém, antes de contar para ti que não queria mais cruzar com os teus olhos.
Eu disse para São Rimbaud das Temporadas Infernais que me escutasse e me enviasse umas preces, ele deu jeito de enviar uma mensagem divina:
"Eu habitava em sua alma como em um palácio que se desocupou para não se ver nele uma pessoa menos nobre que vós: eis tudo. Ai! eu dependia por completo dele. Mas, que queria ele de minha existência opaca e covarde? Não me tornava melhor, se não me fazia morrer! Tristemente despeitada, eu lhe disse algumas vezes: "Compreendo-te". Ele dava de ombros.(...)Ai! dias havia em que os homens afiguravam-se-lhe joguetes de delírios grotescos; punham-se a rir horrivelmente, por muito tempo. - Depois recuperava seus modos de jovem mãe, de irmã mais velha. Se fosse menos selvagem, estaríamos salvos! Mas também sua
doçura é mortal. Estou submetida a ele. - Ah! Estou louca!". "Um dia, talvez, desaparecerá maravilhosamente; mas preciso saber se voará para algum céu, para que eu veja, ainda que por um pouco,
a assunção de meu amiguinho"

E eu repetia mais ou menos isso quando acordava: "Um dia, talvez, desaparecerá, maravilhosamente;(...)" Dos delírios do Rimbaud, ou mais um dos meus incontáveis modos de (d)escrever o que fomos, o que pretendiamos ser; mas o jeito de te encontrar agora era num quase mantra, que te mandava para o Céu. Enquanto eu tirava uma temporada no Inferno. Longe, alucinada e delirante. Queimando na ninhada de labaredas, pronta para te esquecer.