
Crianças sempre bagunçam muito o sensível, olhares sempre penetram muito em mim.
Lá vai....
"Era um caminho muito engraçado, não tinha livro, não tinha nada.
Ouvir música não podia não, por funk vibrava no fundão."
E aí eu volto àquele estado de espírito que vcs já conhecem, meio cético, de ficar longe de tudo. Olhando as coisas de fora, ficando em outro plano e vendo tudo sob a moldura escolhida.
O personagem principal desta vez era uma criança, um menininho, de mais ou menos 7 anos. Tinha o léxico meio chulo, mas mostrava a mãe a cidade com a imaginação pueril que eu mais invejei na minha vida.
"Mãe, aquele carro poder ser da gente né? O pai trabalha trabalha, tu trabalha e eu estudo um monti, ti prometu"
"Mãe, olha ali. Olha! Olha! É mais bonita que a Gabriele da 1ª B!!!!!! Será que ela me namorava?"
O ônibus seguia o itinerário quase como uma canção barroca: por vezes apressava, mas logo acalmava de novo. Será que tinha trânsito em Pelotas? Não era nisso que eu pensava, era no meu personagem.
O ônibus parou no farol e ele: "MANHÊ, OLHA É O PAI!!!!!!!!" A mãe olha, meio descrente, "Ah!" (...) "põe a cara pra fora, grita pra ele, guri!!!" Ele executa a ordem quase que instantaneamente: "AÊ PAIÊÊ"
Estiquei um pouco os olhos pra poder enquadrar melhor o pai. Ele estava sentado no bar, num buteco. Só deu tempo de acenar pro filho e o ônibus acelerou de novo.
Agora, com o tom de voz um pouco mais baixo, ele dizia:"Mãe, porque o pai já não vai co a gente? Ele já parou de trabalhar." Ela olhou desanimada e disse: "Ele já vai, filho."
O olhar ficou distante. Os dois olhavam o infinito como se estivessem olhando um filme de ação, sem piscar. Atrás deles tinha os meus olhos, que agora acompanhavam o infinito junto com eles.