quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Tabacaria. da série: Cenas Cotidianas

Hoje a tarde, na lanchonete com uma amiga, enquanto conversávamos eu perdi meu olhar.
Por cima do ombro dela, lá no fundo, uma menina sentada sozinha. Sozinha não; estava acompanhada de um copo de suco de alguma coisa cor-de-rosa, quase roxa, e um prato de batatas fritas. Batatas fritas com cheddar. Muito cheddar.

Depois que meus olhos encontraram eles três lá no fundo; ela, o copo gigante e a quantidade louca de batatas e cheddar, eu não conseguia prestar atenção em mais nada.
Meus olhos já tinham tudo: o foco de luz, a cena, a personagem. E o monte de batatas fritas. A angústia da cena. Eu já tinha até trilha sonora. Algo como um barroco bem forte, que traria momentos de lucidez e desespero; entre ela, o comer, o devorar, ou o sair.

Era aquilo: "milhões do mundo que ninguém sabia quem era (e se soubessem, o que saberiam?)"

Ela era meio despenteada e tinha cara de desespero. Não sei se o desespero vinha de acabar logo a montanha de batatas(com cheddar), ou nem começar.
Entre os goles do suco cor-de-rosa, quase roxo, ela hesitava: devorar logo, ou levantar e seguir a vida.

E eu, alheia aquele desespero, só conseguia pensar no Fernando Pessoa:
"Come chocolates, pequena;
come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo que não chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!"


Para minha decepção, ou felicidade, ela comeu apenas três batatas. Amarelou. Uns goles de suco ajudaram a engolir a gula, e ela abandonou a Montanha(de batatas, e muito cheddar) ali em cima da mesa. Foi-se embora quase como heroína. Uma heroína despenteada que abandonara o desejo, sem o saciar.
E eu, seguia pensando no Pessoa: "Sempre o impossivel tão estúpido como o real / Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono do mistério da superfície / Sempre isto ou sempre outra coisa, ou nem uma coisa nem outra."