segunda-feira, 17 de outubro de 2011

do Capítulo "As ruínas círculares", Ficções.-Jorge Luis Borges

"O propósito que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar
um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse
projeto mágico esgotara o espaço inteiro de sua alma; se alguém lhe tivesse perguntado o
próprio nome ou qualquer aspecto de sua vida anterior, não teria acertado na resposta.
Convinha-lhe o templo inabitado e despedaçado, porque era um mínimo de mundo visível;
a proximidade dos lenhadores também, porque estes se encarregavam de suprir suas
necessidades frugais. O arroz e as frutas de seu tributo eram pábulo suficiente para seu
corpo, consagrado à única tarefa de dormir e sonhar.(...)
Compreendeu que o empenho de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que
se compõem os sonhos é o mais árduo que pode empreender um varão, ainda que penetre
em todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árduo que tecer uma
corda de areia ou amoedar o vento sem rosto. Compreendeu que um fracasso inicial era
inevitável. Jurou esquecer a enorme alucinação que o desviara no começo e procurou outro
método de trabalho. Antes de exercitá-lo, dedicou um mês à reposição das forças que o
delírio havia desperdiçado. Abandonou toda premeditação de sonhar e quase
imediatamente conseguiu dormir uma parte razoável do dia.(...)"

"O filho que gerei me espera e não existirá se eu não for".