Hoje a tarde, na lanchonete com uma amiga, enquanto conversávamos eu perdi meu olhar.
Por cima do ombro dela, lá no fundo, uma menina sentada sozinha. Sozinha não; estava acompanhada de um copo de suco de alguma coisa cor-de-rosa, quase roxa, e um prato de batatas fritas. Batatas fritas com cheddar. Muito cheddar.
Depois que meus olhos encontraram eles três lá no fundo; ela, o copo gigante e a quantidade louca de batatas e cheddar, eu não conseguia prestar atenção em mais nada.
Meus olhos já tinham tudo: o foco de luz, a cena, a personagem. E o monte de batatas fritas. A angústia da cena. Eu já tinha até trilha sonora. Algo como um barroco bem forte, que traria momentos de lucidez e desespero; entre ela, o comer, o devorar, ou o sair.
Era aquilo: "milhões do mundo que ninguém sabia quem era (e se soubessem, o que saberiam?)"
Ela era meio despenteada e tinha cara de desespero. Não sei se o desespero vinha de acabar logo a montanha de batatas(com cheddar), ou nem começar.
Entre os goles do suco cor-de-rosa, quase roxo, ela hesitava: devorar logo, ou levantar e seguir a vida.
E eu, alheia aquele desespero, só conseguia pensar no Fernando Pessoa:
"Come chocolates, pequena;
come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo que não chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!"
Para minha decepção, ou felicidade, ela comeu apenas três batatas. Amarelou. Uns goles de suco ajudaram a engolir a gula, e ela abandonou a Montanha(de batatas, e muito cheddar) ali em cima da mesa. Foi-se embora quase como heroína. Uma heroína despenteada que abandonara o desejo, sem o saciar.
E eu, seguia pensando no Pessoa: "Sempre o impossivel tão estúpido como o real / Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono do mistério da superfície / Sempre isto ou sempre outra coisa, ou nem uma coisa nem outra."
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
do Capítulo "As ruínas círculares", Ficções.-Jorge Luis Borges
"O propósito que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar
um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse
projeto mágico esgotara o espaço inteiro de sua alma; se alguém lhe tivesse perguntado o
próprio nome ou qualquer aspecto de sua vida anterior, não teria acertado na resposta.
Convinha-lhe o templo inabitado e despedaçado, porque era um mínimo de mundo visível;
a proximidade dos lenhadores também, porque estes se encarregavam de suprir suas
necessidades frugais. O arroz e as frutas de seu tributo eram pábulo suficiente para seu
corpo, consagrado à única tarefa de dormir e sonhar.(...)
Compreendeu que o empenho de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que
se compõem os sonhos é o mais árduo que pode empreender um varão, ainda que penetre
em todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árduo que tecer uma
corda de areia ou amoedar o vento sem rosto. Compreendeu que um fracasso inicial era
inevitável. Jurou esquecer a enorme alucinação que o desviara no começo e procurou outro
método de trabalho. Antes de exercitá-lo, dedicou um mês à reposição das forças que o
delírio havia desperdiçado. Abandonou toda premeditação de sonhar e quase
imediatamente conseguiu dormir uma parte razoável do dia.(...)"
"O filho que gerei me espera e não existirá se eu não for".
um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse
projeto mágico esgotara o espaço inteiro de sua alma; se alguém lhe tivesse perguntado o
próprio nome ou qualquer aspecto de sua vida anterior, não teria acertado na resposta.
Convinha-lhe o templo inabitado e despedaçado, porque era um mínimo de mundo visível;
a proximidade dos lenhadores também, porque estes se encarregavam de suprir suas
necessidades frugais. O arroz e as frutas de seu tributo eram pábulo suficiente para seu
corpo, consagrado à única tarefa de dormir e sonhar.(...)
Compreendeu que o empenho de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que
se compõem os sonhos é o mais árduo que pode empreender um varão, ainda que penetre
em todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árduo que tecer uma
corda de areia ou amoedar o vento sem rosto. Compreendeu que um fracasso inicial era
inevitável. Jurou esquecer a enorme alucinação que o desviara no começo e procurou outro
método de trabalho. Antes de exercitá-lo, dedicou um mês à reposição das forças que o
delírio havia desperdiçado. Abandonou toda premeditação de sonhar e quase
imediatamente conseguiu dormir uma parte razoável do dia.(...)"
"O filho que gerei me espera e não existirá se eu não for".
domingo, 16 de outubro de 2011
quase segredo
Antes de dormir eu pensei. Acordei pensando. Era quase segredo pra mim mesma que o pensamento era você.
O pensamento não podia mais o ser.
A noite primaveril estava linda, e no meio de uma conversa - quase aconchegante - ela, lá em cima, caiu.
Quase caiu dentro do meu bolso; quase caiu do lado do meu pé. Estrela cadente. Estrela dona do desejo mais longínquo, é sempre pra ela que a gente guarda o que a gente mais quer.
Há que se fazer um pedido.
Cabeça cheia de você e desse sentimento que não quer ser. Esvazia, esvazia, esvazia.
Eu fiz uma pedido superficial, mas lá no fundo - do fundo do fundo de mim - eu me confessei, o pedido era ser Seu Carinho.
Quase tinha que ser, quase não foi nada. Quase segredo que eu ainda me encanto com esses olhos, quase mentira que eu quase não dei tanto valor ao que aconteceu.
quase, quase, quase, qua (qua, qua)..............
O pensamento não podia mais o ser.
A noite primaveril estava linda, e no meio de uma conversa - quase aconchegante - ela, lá em cima, caiu.
Quase caiu dentro do meu bolso; quase caiu do lado do meu pé. Estrela cadente. Estrela dona do desejo mais longínquo, é sempre pra ela que a gente guarda o que a gente mais quer.
Há que se fazer um pedido.
Cabeça cheia de você e desse sentimento que não quer ser. Esvazia, esvazia, esvazia.
Eu fiz uma pedido superficial, mas lá no fundo - do fundo do fundo de mim - eu me confessei, o pedido era ser Seu Carinho.
Quase tinha que ser, quase não foi nada. Quase segredo que eu ainda me encanto com esses olhos, quase mentira que eu quase não dei tanto valor ao que aconteceu.
quase, quase, quase, qua (qua, qua)..............
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
caminhei muito
Quando o caminho é longo eu tenho que pensar em algo, realmente interessante, para esquecer o quão longo ele é.
Da faculdade até a minha casa dá uns vários mil quarteirões, mas eles podem ser reduzidos a dois ou três se eu tiver um bom assunto a ser desenvolvido, comigo mesma. E fica mais fácil ainda se for primavera.
Era sobre cuidar da alma, que eu pensava, mais que do coração e do corpanzil. Porque é nela que, em essência, estamos. Há que lembrar quanta barra ela aguenta, além razão e emoção para cada fossa. É uma atenção quase ínfima, mas que torna o simples farfalhar de uma borboleta o acontecimento mais extra-ordinário do universo.
Minha alma agora percebia cores novas nas flores. Percebia os olhares com mais atenção. E os cheiros, ahh.... essa Alma aquietava todo o resto com os cheiros. Cheiro e lembrança, quase sinônimos, delícia de ser sentida.
Outubro já tinha ido pela metade e o Sol parece mais quente. A partir de amanhã o Sol estará mais presente, todo dia quase o dia todo. Tem Sol pra sempre? Depende da Alma - na verdade não, só até o próximo outono.
Caminhando e cantando; e seguindo a canção.
Da faculdade até a minha casa dá uns vários mil quarteirões, mas eles podem ser reduzidos a dois ou três se eu tiver um bom assunto a ser desenvolvido, comigo mesma. E fica mais fácil ainda se for primavera.
Era sobre cuidar da alma, que eu pensava, mais que do coração e do corpanzil. Porque é nela que, em essência, estamos. Há que lembrar quanta barra ela aguenta, além razão e emoção para cada fossa. É uma atenção quase ínfima, mas que torna o simples farfalhar de uma borboleta o acontecimento mais extra-ordinário do universo.
Minha alma agora percebia cores novas nas flores. Percebia os olhares com mais atenção. E os cheiros, ahh.... essa Alma aquietava todo o resto com os cheiros. Cheiro e lembrança, quase sinônimos, delícia de ser sentida.
Outubro já tinha ido pela metade e o Sol parece mais quente. A partir de amanhã o Sol estará mais presente, todo dia quase o dia todo. Tem Sol pra sempre? Depende da Alma - na verdade não, só até o próximo outono.
Caminhando e cantando; e seguindo a canção.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Pensando nisso
Eu pensava, que você deveria apenas escolher: importar-se ou não.
E esse importar-se referia-se aos sentimentos alheios, em relação a você. Desde o desprezo até o amor platônico. Porque eles podem ser reduzidos a nada. Nada mesmo.
E esse importar-se referia-se aos sentimentos alheios, em relação a você. Desde o desprezo até o amor platônico. Porque eles podem ser reduzidos a nada. Nada mesmo.
Cabe escolher "acolher", ou ignorar.
Atenção: Importar-se implica, inclusive, sofrer. Com o amor ou a indiferença.
QUANDO É BOM: Quando é confortável a situação de ser admirada pelo outro, o ego fica a mil por hora e, por mais desprezível, sempre sobra uma pontinha da íris para brilhar.
Atenção: Importar-se implica, inclusive, sofrer. Com o amor ou a indiferença.
QUANDO É BOM: Quando é confortável a situação de ser admirada pelo outro, o ego fica a mil por hora e, por mais desprezível, sempre sobra uma pontinha da íris para brilhar.
QUANDO DÓI: É indiferente, deveria ser totalmente o reverso. Mas não é. Tem mais mil quatrocentos e três motivos para você lembrar de esquecer que em algum canto do mundo, para alguma pessoa você não faz diferença alguma. E isso deve ser importante para você: você mesmo, yourself, solo tu, etc e tal.
O outro lado......
QUANDO A ESCOLHA NÃO É SUA: Você está fazendo bem ou fazendo doer, enquanto exerce o sentir. A posição há de ser tomada pelo outro. A faca e o queijo, tudo nas mãos do outro. O coração, nas mãos do outro. Mas ainda há uma saída: seja "carola". Vale ser devota, amar platonicamente, sem ter certeza alguma do que há do outro lado.
As vezes eu sou devota, as vezes o Ser Supremo.
E ainda tem aquelas vezes que eu sou o Ser Supremo de Mim Mesma.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
A arte faz parte

Falar em teoremas matemáticos na sala de aula, mesmo que com toda exatidão e estudo desenvolvido sobre diferentes resoluções, é difícil.
Falar de arte torna-se ainda mais por haver uma possibilidade muito maior do “erro”, ou melhor, de diferentes interpretações corretas , acerca do assunto. E é através dessa “inexatidão” que disciplinas das artes (teatro, música, dança) além de despertar um sensível no aluno , é com a arte contemporânea que traz maior senso crítico e aproximação com obras que trazem realidades do mundo inteiro, como a fotografia do Sebastião Salgado, por exemplo. Porém é com essa mesma “inexatidão” que tais disciplinas foram marginalizadas; mesmo que desenvolvam, ou aprimorem, aptidões como desenvoltura corporal, no teatro; concentração evoluída, na música; e noção espacial, na dança. Alguns aprendizados tão importantes quanto a regra de três ou o cálculo da velocidade média.
A arte contemporânea trouxe uma vertente mais crítica, fazendo com o que os estudos em Artes Visuais sejam muito mais abrangentes, que na arte renascentista, por exemplo. A proporção atingida pelos estudos artísticos vai além dos livros; Nietzche, por exemplo, “já vinha bradando pela arte e sua relação mais próxima com a vida, nos convocando a pensar nossa própria existência estetica¬mente."
Há muito mais a oferecer para a formação escolar que as alegorias utilizadas nas datas comemorativas. Ainda há muito que "pintar" nesse "sete".
Assinar:
Comentários (Atom)
