Os meses gelados do inverno pedem abraços e sorrisos para que esquentemos. Inverno passado foi diferente e eu me sentia quente mesmo sem tê-los[os abraços, ou os sorrisos], alguma coisa aqui e acolá supriam o desejo dos teus braços e teus dentes. O desejo supria o próprio desejo. Mas inverno é sempre inverno e mesmo que tenha gramado com sol, amigos e bergamota ao pé da arvore, vai fazer sofrer na hora de pensar em tomar banho. E é com a bergamota e os cremes de abacate que eu finjo que eu amo o inverno; é quando a gargalhada aquece que eu finjo que amo o inverno.
E do mesmo modo, quando você surgiu eu resolvi fingir, mas o arrepio da pele quando tuas mãos me tocavam não me deixaram mentir.
Traição pura, a do meu sensível. Eu quis fazer jogo duro, esperar um tempo, amadurecer esse pingo de luz que se transformara num globo de espelhos respingando brilho por todo lado; eu quis que fosse diferente só por ser, a bem da verdade, nada me desagradou. Só precisávamos fugir dos olhares e beijos endoidados tão convencionais. Tinha que ser diferente do “boca, nuca, mão e a tua mente não”, porque eu queria a tua mente antes da boca. E talvez as mãos. As mãos na nuca. E aí então, por fim, teus lábios.
E antes que apaguemos as luzes eu quero te respirar inteiro, pesar meu corpo sobre o teu e fazer com que tenhamos que ritmar nossa respiração juntos, porque o meu abdômen expandindo brigaria com o teu. Inspiraremos e expiraremos juntos, até faltar o ar.